sexta-feira, 15 de abril de 2022

 

Apostasia  ( Meditações sobre a chama queimando).

L.L.L. 2018




A coragem de lançar-se ao nada, na direção do todo, de tudo, em lugar algum...

Esta noite recolhido em meu quarto, orei! Tão profundo silêncio, foi conectado ao meu "Ser" que pude ao som de meu coração enxergar a possibilidade de minha alma. Esta noite em minha prece e devoção um único pedido foi dirigido ao celestial: _Pela vossa graça, faça-me um descrente! Que vosso poder me converta num homem livre das necessidades de um espírito escravizado, que seja eu coberto com a coragem dos ateus, dos ditosos senhores do próprio destino, dos amantes das vastidões onde as almas se perdem no tempo da eternidade, que minhas crenças sejam mortas por ti e que seja eu o próprio descrente alheio ao mundo fora do mundo! _Por sua graça, dai-me a solidão da autonomia, que possa eu proclamar o abandono da fé! Diante dos joelhos que se dobraram na escuridão passada, o milagre alcançado! Terminou! Ao acordar tudo havia mudado num despertar! O mundo havia mudado, os sentidos haviam mudado, a vida havia mudado. Percebi profundamente que, já não mais era eu o que outrora fui! Percebi em torno de mim uma vastidão de Belezas, e eu sem deus, senti-me pela primeira vez em comunhão, tudo era vazio, tudo tornou-se vivo, a vida sem destino pulsou forte e preciosa! Diante desse milagre ao som de tantas coisas que se mostraram acabar, percebi a vida, percebi a raridade dos desamparados, o tom de voz dos heróis, o compasso dos generosos, a alegria dos desesperados, a dança dos catatônicos em estado de choque diante do universo; toda sorte desses que caminham sem crer e que se edificam em suas próprias vidas, sejam quais forem os solos abaixo de vossos corações.

Hoje já idoso e ainda que descrente, lanço-me em ousadia em outras orações noturnas, busco encontrar-me novamente com as ditas belas crenças, busco render-me quem sabe a novos altares, mas o milagre de outrora foi completo. Assim eu, um agraciado, permaneço descrente, impávido num assombro diante do milagre,de milagres! L.L.L. ( A vela que queima - meditações.)



Jaraguá do Sul – Sc

L.L.L. 29.Abril; 2018.

quarta-feira, 13 de abril de 2022


Distâncias

Ao longe nem tão longe, atenha-se ao som do sino,

Dentro de si, o deus caído angustía-se,

Sobre duas patas marcha  em seu compasso,

Entre o berça e a vela: os sonhos de criança!

Bem próximo e aconchegado à tudo que o homem conhece, está o fim,

Tão distantes estão os deuses, as verdade e as palavras,

Ao longe, todo resto é sempre memória,

Ao som do sino, tudo é orvalho perdido sem face,

Despido segue o homem o cortejo, a marcha gritante insofismável,

Para a alma onde tudo é silêncio,

Nada é além do corpo, no abrigo gélido desse cortejo,

Se assim se fez o medo, assim se fizeram os homens,

O deus caído ainda caminha selvasgem pelo mundo,

encontra-se entre o nada e a eternidade,

O baile de suas pegadas pelo mundo,

é o peso de sua cabeça onde a alma respira,

Ao longe, bem mais próximo, já dormem as velas,

acorda o deus para a sua vida,

sob seus pés há memória ruidosa,

Sino e aurora no compasso de um peito sempre insuficiente.

L.L.L. (16/Abril/2020).

 

domingo, 10 de abril de 2022

 


                              DESPERTAR HUMANO E A ANTI HUMANIDADE EM SEU SONO

                              (" A Inteligência quando e como estado de coma profundo")

                                   A alegria pelo conhecimento que nos entristece.


Pois; diante do despertar, diante da incômoda posição de um saber que se choca com o mundo das massificações e das impressões dadas pela cultura deformadora, trilhar o caminho que nos afaste desse destino dos cegos, é um caminhar que depende de disposição individual onde, continuar significa renascer ou mesmo nascer de fato para o mundo; por outro viés - crer-se já sabedor, crer-se numa posição de chegada, significa morrer profundamente sem jamais fitar o Sol verdadeiro.

Insistir e investir-se no conhecimento e continuar esta tal trilha, lhe revelará cada vez mais "as coisas" que ali estavam escondidas sob o manto da escuridão da luz da impostura. Essas descobertas são feitas de desafios e indigestão, mas também há prazeres que igualmente nos foram tomados , roubados para então serem ignorados, até então desconhecidos, podemos falar de um estado de descobertas inclusive a descoberta de outras Belezas cujo o significado seja: o prazer pela vida em plena diversidade!

Entretanto, armadilhas há, o sistema da decadência se defende justamente pela ideia do conhecimento, pois o ignorante não defende a ignorância como valor - defende justamente o "conhecimento" ( entretanto: um “saber” que ignora a verdade, a devoção pela falsa luz)!

Sobre o conhecimento como valor humano, neste caminhar, não há de fato um destino certo, um ponto de chegada. Uma chegada seria um destino, um ponto fixo, uma condição que; vez atingida ali estaria um deus qualquer feito do absoluto e esta condição não é a condição humana. Somos viajantes sempre em busca do infinito, o conhecimento depositado no fim do arco íris inalcançável, mas que nutre nossos desejos e nos torna existentes justamente pelo que aprendemos na jornada. "Achar, pensar que já chegou, se creditar um pronto detentor da verdade" nos torna fracos, amargos, arrogantes e petulantes; de fato: falsos deuses.

Há uma advertência em Platão, diz o filósofo que: pior do que a ignorância é o falso conhecimento ou o conhecimento nas mãos erradas!

Vejamos o mundo, este está apinhado de falsos conhecedores, de pseudo gente, pseudo humanos, de fato há uma abundância massiva formada por pseudo humanidade. Estes; usam e saturam o mundo com a inteligência até certo ponto, para e daí não passarem, não evoluírem, assim estagnando e impossibilitando de uma grandeza esclarecida: verdadeira grandeza incitada perla razão. Desse modo, assim se fizeram "os superiores", assim vão destruindo o mundo pela ignorância que defendem, inteligência como uma doença fatal, um estado de coma da alma; seja na política, na religião, na cultura em geral...são defensores da destruição da vida - percebendo ou não - sendo estes os manipuladores ou os manipulados - ambos todos culpados de crimes contra a vida!!!

Infinitos são os manifestos em prol da destruição da vida. Jogar lixo no chão - é ser destruidor da vida...parece simples e pequeno...mas revela o que é aquele ser ali...um destruidor...um “ser” anti vida construtor do caos. Desviar recursos públicos é um trabalho contra a vida, degradar a linguagem da existência deformando a vida em sua prática cotidiana, a destruição da estética como valor, a destruição da Arte; trata-se do mesmo princípio anti humano aplicado em novo estágio de uma doença contrária a civilização, contrária ao que se afirmaria: humanidade.

Outras formas ideológicas como sintoma de uma inteligência guiada para o coma.

*Negar educação sexual para uma sociedade onde engravidam-se as mulheres sem o devido amadurecimento e os homens são incompetentes para a paternidade é ser contrário a vida. **Ser contra o aborto numa sociedade onde há estupros, morte por inanição, pobreza e falta de acesso a saúde e ao desenvolvimento - é ser contrário a vida. ***Ser a favor do aborto onde exista tanta banalidade sexual, onde há lixo no chão, onde a linguagem seja decadente e limitada, onde os valores da vida são associados a festas intermináveis que culminam em seres feitos pela bebida, gerados pelo prazer animal, pela violência, pelo falso adulto inconsequente em seus violentos desejos: é ser contrário a vida...

Devemos ser a favor da vida sempre...mas isso não é algo simples, discursivo, ingênuo e positivista. A vida é uma questão de espírito; para o espírito – existência / resistência.

Defender a vida é muitas vezes defender a morte e defender a morte é muitas vezes valorizar a vida...Sem sabedoria superior (filosofia), não há como saber o real papel que estamos defendendo no exercício de nossas ideologias...

Encontrar-se com outras Belezas é a mais profunda necessidade para todo aquele que decide atravessar o vale dos mortos onde a vida é sem existência. O caminho não se apresenta em brilho celeste, é tateado em chão cinza. Entretanto num dado momento as brumas se dissipam e a luz da estrela percorre a mente tomando o espaço celeste do espírito. O mundo será o mesmo, mas não mais o indivíduo que deixou de ser um sujeito acomodado sob o julgo e peso da pseudo humanidade.

Há duas formas de tristeza no mundo: Uma tristeza nascida pela ausência de felicidade e esta é sempre comparativa diante da felicidade ornamental promovida pelo próximo e semelhante ao lado; uma tristeza promovida pelo desejo de ser "feliz tanto quanto o outro". Esta é uma tristeza mortal ao espírito humano, é existente na inveja, acomodando a vida num coma onde as ilusões serão dadas por realidade num corpo cujo a vida encontra-se presa e definhando.

Uma outra forma de tristeza é aquela nascida dos olhos que foram postos no horizonte da própria mente e lá observaram um brilho chamado espírito. Uma tristeza nascida do conhecimento das distâncias do universo, da imensidão de tudo ao redor. Uma tristeza nascida da convulsão e ânsia diante da exuberância viva como existência finita, delicada, necessária para a Beleza do Ser. Essa é a tristeza nascida do desejo humano demasiadamente humano, sejamos espírito então!

Devemos pois nos alegrar: há filosofia e tristeza - o paradigma da superação da inteligência como possibilidade para a razão humana; humanizadora -civilizada.

A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas (Gilles Deleuze)*

https://filoinfo.net/node/126#:~:text=A%20filosofia%20serve%20para%20entristecer.,sob%20todas%20as%20suas%20formas.

Robson A. Silva. Jaraguá do Sul

Santa Catarina / Abril 10 / 2022.